segunda-feira, 21 de abril de 2008

Feliz Aniversário

De mãos dadas, na praça da Rui Barbosa com a Rosa e Silva, eles conversavam quase que timidamente, num banquinho.
Os olhos de Mendoncinha brilhavam, de uma forma inocente (abobalhada, eu diria). Podendo-se dizer o mesmo dela. Levantava-se para comprar balas num fiteiro em frente, quando Morena pensativa segurou um de seus braços e cravou-lhe a seginte pergunta:
- Você seria capaz de me trair?
Mendoncinha rebateu, de cara:
- Nunca! Por que isso agora?
- Morena insistiu:
- Veja só! Imagina eu, daqui a uns trinta anos. Como acha que eu vou está? Assim? - Abaixou a cabeça.
Medoncinha olhou para aquele corpo belíssimo de morena com vanglória, riu-se e ensaiou uma reposta, mas a pequena vendo o ar de graça no rosto de mendoncinha imperou:
- Mas imagina!
Sentou-se novamente:
- Veja bem, meu amor. Eu nunca seria capaz de fazer mal algum a você. Quanto mais te trair. Sabe por quê? Por que eu amo você. - e com as mãos leves na face de Morena ele continua: -Como nunca amei ninguém em toda a minha vida.
- Jura? - Pergunta morena com a carinha de quem quer rir e jeitinho manhoso.
- Juro.
Morena, com um sorriso bobo de contentamento, beija-lhe a boca, apaixonada.

O JANTAR

Ao chegar em casa, Mendoncinha, que morava com o pai e dois irmãos menores, encontra-os, como de costume nos domingos desde que sua mãe faleceu, na mesa a postos para jantar. Seu Mendonça, o pai de Mendoncinha reclama:
- Pensei que não viria mais, hoje! Depois que conheceste "essazinha". Pouco ligas para esse velho.
E de fato seu Mendonça estava certo. Quando sua mulher morrera, num horrível acidente com um caminhão, seu Mendonça e seus filhos aproximaram-se muito mais. Mendoncinha que já era um muleque sabido, como o denominava o pai, tornara-se sua compania principal, ao passo que, na época, os gêmeos, ainda, pouco emiiam algum som. Aos dezenove anos, quando arranjara seu primeiro emprego como carteiro, concursado, Mendoncinha, não por querer, afastou-se do seu pai e por ocasião só se viam nos fins de semana. A dois meses, já com vinte e três anos, fora promovido a um cargo maior na empresa e a pouco mais apresentara Morena, em sua casa, como namorada. De início, Mendonça ficara orgulhoso pelo filho ter como par aquela beldade – Entusiasmou-se: - Esse é o meu filho! -, mas, com o tempo, notara o filho mais e mais distante, gradativamente.
Ao ouvir a reclamação do pai, mendonça aproximou-se e deu um "cheiro" na cabeça do velho. E falou:
- Deixe disso painho. Não há mulher que eu troque pelo senhor, não sabes?
O velho ainda com cara abusada porém, com ar de riso mandou:
- Senta muleque (o pai não perdera o hábito). Vai esfriar. Mendoncinha sentou-se, serviu-se e começou a comer.
Já no quarto, em trajes de dormir, Mendoncinha fez suas orações e deitou. Na sua cabeça, vinham os traços da pequena. Os traços, após alguns instantes, criava forma. Era o rosto de Morena. Morena ria, trejeitava e beijava-o. Um ronco profundo anunciara seu sono.

A VIDA

No outro dia. Disposto que só ele, Mendoncinha acordou primeiro que todo mundo, preparou o café, serviu-se, e antes que os outros acordassem, saiu para o trabalho. E assim a sua vida passou. Depois de um ano, casara-se com Morena, mais três anos tiveram seu primeiro filho. Esse crescera e tornara-se um homem de bem. Seus irmãos que não se deram muito bem na vida, contudo viviam com dignidade; seu pai falecera.
Agora Mendoncinha era o pai. Sua mulher, apesar de algumas ruguinhas mantivera-se bem conservada para a sua idade. Mendocinha, até, dizia que como vinho a esposa melhorara com o tempo. Esse pobre, pelo contrário, que sempre fora um homem elegante e bem ajeitado, embarrigou-se, pareceu diminuir e, ainda por cima, sofria com um alto grau de calvície. Mas não notou nenhuma dessas auto-mudanças de cara. Até que, algum tempo depois, notara que a mulher afastava-se cada vez mais dele, e além do mais, não queria cumprir os compromissos conjugais. Era uma dor de cabeça aqui, outra dor de coluna pra lá. Encucou-se com razão, Mendoncinha: - Logo Morena?! - Deixou passar de início, talvez fora só uma fase, mas as coisas só fizeram piorar. Morena começou a tratar-lhe mal. Xingava-o com os piores adjetivos que uma pessoa obesa e careca podia ouvir.
Certa vez, um dia que estava adoentado com uma virose danada, dispensou-se do trabalho cedo, não agüentava a "moleza no corpo", como falava. Ao chegar em casa, parou o carro em frente e adentrou rapidamente, por causa da chuva que começava a cair. Febril, tirou o paletó molhado, afrouxou a gravata, e fora a cozinha tomar um copo d'água, para engolir o anti-térmico que acabara de colocar na boca. Enquanto enchia o copo, no filtro. Ouviu um barulho estranho. Como se algo estivesse batendo nas paredes continuamente. Bebeu um gole da água e colocou o copo semi-cheio na pia. Só então notara que sua mulher não estava em nenhum canto por ali. Seguiu o som das batidas. E a medida que chegava mais perto do quarto, o tum, tum, tum aumentava. E aumentava, e aumentava... até que, em frete a porta, podia-se ouvir em alto e bom som o que se passava lá dentro. Mendoncinha não quis pensar besteira e mesmo exitou em abrir a porta do quarto. Mas abriu. Não acreditou no que viu. Balbuciando, Mendoncinha perguntava-se em voz baixa: -Eu mereço? Depois de repetir algumas vezes, exaltou-se: Eu mereço isso sua canalha?! Pensa que isso aqui é a casa da mãe Joana? Sua mulher que estava na cama com um garotão a lá Gianequini, numa posição surreal, inacreditável até o momento, o encarou e com uma cara de demônio. Exclamava: Me deixa em paz seu saco de batatas podres, seu balofo careca, dá o fora daqui. Gargalhava alto e no embalo gritava: - Me deixa! Some daqui! Não amola! Por um momento passou pela cabeça de Mendoncinha, matá-los, mas numa tristeza imensa, as palavras de Morena começaram a ecoar em sua cabeça. As lagrimas caiam em seu rosto acompanhadas de gritos de horror. Saiu correndo. O dia nublado começou a chover. Ele correu, correu e correu. Até que parou no meio de uma avenida. Aos prantos, louco ajoelhou-se. Um caminhão de batatas perdeu o controle e o estatelou no chão. Com um pingo de consciência que ainda restava, enxergou uma cadela lambendo sua face.

O SONHO

Mendoncinha acordara assustado, com um beijo de Morena em sua face. Levantou-se rápido e apavorado. Tocou com suas duas mãos no rosto e depois em todo resto do corpo. Ainda apontou o dedo para Morena no intuito de falar alguma coisa, mas deu-se conta finalmente que tudo que não passara, apenas, de um pesadelo. Levantou a cabeça, e notou Morena, seus irmão e seu pai segurando um bolo, com olhos de quem não estão entendendo nada. Naquele dia os irmãos e a namorada prepararam uma festa de madrugada, antes de Mendoncinha se acordar. Passado o espanto, gritaram todos:
- Feliz Aniversário, Mendoncinha!
Mendoncinha pensativo, saiu correndo no meio dos parabéns.