sexta-feira, 12 de dezembro de 2008
Cabeça
Homem Urubú
Feito um ser humano, ele pensava. Quase nunca se fazia racional. Àquela tarde ele teria mais motivos para ser. Ela parecia seu sonho. Ela era a esperança da descircularização. Arrumou seus cabelos crespos, perfumou seus ombros com o melhor que pôde comprar. No espelho se enxergava outros, com outras caras que não as suas, com outras sortes. Estremecia sempre que pensava na fragilidade de seus momentos felizes. Ajeitou as rosas que comprara, e as cheirou como se tivessem cheiro. Eram rosas vermelhas.
Vermelhos eram os céus daquela tarde-quase-noite. Abriu o portão e enchergou a calçada amiga de suas várias desilusões. Riu-se como despedindo-se dela. Sua cabeça só pensava. Era a calçada, a rua, as pontes, o mar e sua amada do outro lado. Olhou-a. Seu coração bateu. O automóvel sangrou inesperadamente. O dia chorou tripas e ossos quebrados naquele final de tarde vermelha. Parou de pensar. Anoiteceu.
Mão
Sonhar Com Cobra
Finalmente, eu vi! Eu vi! - Com esses olhos que os vermes hão de fartassem. Vi com um coração que não queria ver. Que não queria sentir. Nunca. O que sentiu àquele momento. Ainda naquele dia – De manhã – Ela falou que me amava. Que me amava! Entende? Não se passaram duas horas...
Até o corno aqui finalmente ver. Constatar que eu não estava louco, não estava! Todas as vezes que morria de ciúmes ao vê-la dissimulada. Linda. Vadia. Vadia!
Em uma lanchonete, não muito longe desse bar, ao persegui-la. Notei logo alguma coisa muito estranha. Não durou muito a vê-la nos braços e nas mãos do filho da puta. Eu sabia e não me vanglorio disso. Eu não estava louco? Não estava!
Na hora, pensei em sair correndo pra cima deles. Matá-los. Mas por aquele momento me vi paralisado. Estático como uma bomba relógio. Milhões de situações pairaram sobre a minha cabeça. Uma mais deliciosa que a outra. Comecei, sem saber por que, a degustar cada acontecimento.
Saíram da lanchonete, dentro de um Monza Azul Metálico. De começo hesitei, mas continuei seguindo-lhes. Um motel. Intrigantemente, já não sentia nada. Só imaginava. A certa distância esperava. Na saída, muito satisfeitos, despediram-se. Ela pegou um taxi. Ele tomou seu destino com seu carro. Segui-o.
Morava a apenas dois bairros de distância, do nosso. Estacionou o carro em frente de sua casa e foi comprar cigarros, bem perto. Na frente da casa dele, esperava-o eu a sua volta. Assim que ele voltou, com um cigarro de menta na boca, perguntei a ele se poderia ajudar-me com o pneu do carro. Surpreendi suas costelas com uma pistola. – O que é isso? – Perguntou. Disse-lhe que só queria levá-lo a um passeio. Só queria ter uma conversa.
- A vista do mar é linda daqui, não achas?
- Você é louco? O que está fazendo?
- Sabe que não é a primeira vez que me perguntam isso. Na verdade, já chegaram quase a me convencer.
- Pára com isso, cara. Eu tenho família. – Nesse momento senti ainda mais raiva. Aproximei-me de sua pele branca e olhos castanhos. Observei-os como uma obra de arte. Limpei a lágrima que caia de um dos olhos do frouxo com a pistola. Podia sentir o bafo de buceta que se misturava com o cheiro de cigarro exalado de sua boca.
- Sai do carro. Gritei. – Sai!
- Não faz nada comigo, não, cara. Eu não sei quem é você. Por que faz isso?
Tirei uma corda da mala do carro. Joguei nele e pedi para amarrar os pés. Mijando-se atendeu a meu singelo pedido.
-Pra comer a mulher dos outros tu é muito homem não é imbecil!
Sua face gelou. Se já não entendia tudo, de quase tudo já se entendia o porque de passar por aquela situação.
- Não cara, eu posso explicar. Eu...
Certificava-me se havia prendido mesmo as pernas com as cordas quando, notei uma brecha no nó. Plantei-lhe uma semente na perna e fiz-lhe brotar uma dor. Chorou de dor. Mandei que o engolisse. As veias saltavam sobre sua testa.
- Pensei em matar você de uma vez só. Por todas. – Falei - Pensei em arrancar-lhe a língua e os braços para que nunca mais pudesses se comunicar. Todavia ao ver seu desespero, ao ver sua perna sangrando, algo me fez perceber que todo o ser humano necessita de uma segunda chance. Não vou mentir que não desejo matá-lo. Mas estou sendo honesto com você.
Com aquela fisionomia de dor, ensaiou ainda um sorriso. O canalha.
O cartucho do revólver estava cheio. Com exceção da última bala que utilizei em sua perna.
- Vamos brincar de roleta russa. Aqui existem oito buracos e sete balas. Se o destino quiser que você viva, não interferirei. Deixarei você ir embora. Dou minha palavra. Ajoelhe-se.
Ele o fez. Girei e puxei o gatilho. Com os olhos fechados o idiota tremia. Justamente a porra do buraco vazio! Ao sentir que tirara a sorte grande, sorriu um lindo sorriso. Descarreguei as sete balas restantes em sua cabeça com a esperança que de uma vez por todas realizasse o que é ser atraiçoado.
Meio Destino
Preto era feio e pobre. E apesar do apelido que tinham lhe dado, era branco feito pena. O menino recebera esse apelido por conter traços negros em seu rosto branquelo: Nariz grosso, lábios volumosos...
Preto nascera d'um estupro, no qual a vitima era uma mal conservada quase-senhora de cinqüenta e poucos de idade, chamada Vida. Mesmo sabendo do perigo da gravidez àquela altura da idade, decidiu ter o filho. Vida morreu no parto. Nascera ali um garoto impreguinado de imundice.
Respirou o ar pesado e fedorento do mundo, e vomitou.
Preto fora criado numa espécie de creche para garotos órfãos. E desde cedo agüentava os sarros que teimavam em tirar de si. Sentia-se como se fora amaldiçoado.
Certo dia achou de se perder. Pegou um ônibus pra qual quer lugar e se livrou de seu destino.
Sentia uma certa desgraça vinda de sua existência. Na sua cabeça, pensava algum dia em encontrar sua mãe, do modo mais inesperado, como via nos filmes da tv. Preto, apesar de nunca ninguém ter lhe dado esperança, sonhava que algum dia seria importante e mostrar-se-ia mais forte que os demais.
Não se mostrou, por final. Com alguns anos, após ter saído da creche, o mundo de fantasia que criara fora quase todo destruído. A esperança era um feto abortado. Preto agora cheirava cola e roubava carteiras nas fétidas-belas pontes do recife.
Em certa ocasião teve uma grande amizade. Um velho que de tanto sofrimento surtou. Preto se identificava demais com aquele homem. E o que mais admirava nele, era a sua loucura. Como eram fascinantes todos os conselhos que recebia. Mesmo sem muita sanidade, tinham sentido, e Preto pensava seriamente em segui-los. O velho era um pai pra preto.
Preto o matou, numa noite quando o velho lhe mostrava o rio. Não estava sóbrio. Agiu por impulso de roubá-lo... O costume que adquiriu tornou-se nocivo a partir daquele dia. Ao ver o corpo do velho ensangüentado no chão, chorou pela primeira vez. Era um choro agoniado, cheio de magoas e confissões.
Preto saiu correndo feito um louco pela ponte nova. Corria sem destino, sem saber pra onde ir, por qualquer lugar. Chegou em uma avenida e como descansando parou sentado numa pilastra. Confessava a si mesmo todas as suas desgraças como se fora um feto. Adormeceu.
Preto achou que o dia não amanheceria mais, pois, após acordar ainda teimava o céu escuro. Apenas as luzes laranjas enfileiradas. Sentia-se leve. Parecia ter esquecido de tudo. Sorria como um palhaço. Pensou na seqüência repetitiva da vida. O Riso era insaciável. Pela primeira vez em muito tempo estava sóbrio. Olhou uma linda moça que passeava na calçada. Ensandecido e inebriado por seu próprio sorriso se jogou na frente do primeiro carro que passou na avenida.