sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Cabeça

Estou cansado e preciso esquecer um pouco as coisas sérias. Será que ainda resta algum cigarro? Estou respirando alto, ou será o silêncio? Não. Os carros ainda fazem algum barulho. Carros! Engraçado que nunca tinha reparado nas rodas. Parecem engraçados quando os observo com elas. Faz tempo que não me apaixono. Mas o que isso tem haver com carros? Nossa! Estou ficando louco... Mas, será que endureci demais, ou tenho sido observado de menos? Bem. Mudar é tolice. Mas todos nós mudamos, horas. Somos forçados!Sim. Ainda resta uns dois ou três cigarros na carteira. Gostaria me recordar o dia e hora exatos que me viciei nisso. Prazer é uma coisa que tenho tido de menos ultimamente. Vai ver que, por isso, tenho procurado mais o tabaco.Ela me lembra alguém. Já a observo faz algum tempo. Preciso comprar outro isqueiro. Este, pelos menos deu pra acender, mas “qui sá” o próximo? Mas como posso agora só ter olhos pra esta garota? Ela nem é tão linda assim. Sinto-me estranho. Eu olho para ela como os cachorros olham para o forno de galetos. Mas o pior é que estou ciente disso, e não mudo. Ela brilha. Não tinha reparado em seus olhos castanhos, em seus cabelos negros, em seu sorriso frouxo. Eu a olho com a mesma intensidade de um assaltante. Eu a trago, eu a fumo incessantemente. Ela penetra em meus pulmões. Ela já parece estar indo. O que eu posso fazer para parar o tempo e segui-la sem medo? A perco em meus pensamentos.Na primeira ventania, foi-se o afago. Na segunda, foi-se o fogo. E inacreditavelmente, amei aquela mulher pelo tempo de um cigarro. Engraçado! Dia quente. Noite fria, mas não como gelo...

Homem Urubú

Feito um ser humano, ele pensava. Quase nunca se fazia racional. Àquela tarde ele teria mais motivos para ser. Ela parecia seu sonho. Ela era a esperança da descircularização. Arrumou seus cabelos crespos, perfumou seus ombros com o melhor que pôde comprar. No espelho se enxergava outros, com outras caras que não as suas, com outras sortes. Estremecia sempre que pensava na fragilidade de seus momentos felizes. Ajeitou as rosas que comprara, e as cheirou como se tivessem cheiro. Eram rosas vermelhas.


Vermelhos eram os céus daquela tarde-quase-noite. Abriu o portão e enchergou a calçada amiga de suas várias desilusões. Riu-se como despedindo-se dela. Sua cabeça só pensava. Era a calçada, a rua, as pontes, o mar e sua amada do outro lado. Olhou-a. Seu coração bateu. O automóvel sangrou inesperadamente. O dia chorou tripas e ossos quebrados naquele final de tarde vermelha. Parou de pensar. Anoiteceu.

Mão

Logo então aquela cartomante de riso forçado me falou que eu tropeçaria nas flores. Portanto reforçou, para que eu não me preocupasse, que aquilo só aconteceria quando estivesse mais velho. Levantei a mão com olhar indiferente e segui o caminho vermelho daquela calçada reta e irregular. Distraído e pensativo tropecei em um vaso de flores espinhosas. Dois minutos mais velho.

Sonhar Com Cobra

Finalmente, eu vi! Eu vi! - Com esses olhos que os vermes hão de fartassem. Vi com um coração que não queria ver. Que não queria sentir. Nunca. O que sentiu àquele momento. Ainda naquele dia – De manhã – Ela falou que me amava. Que me amava! Entende? Não se passaram duas horas...

Até o corno aqui finalmente ver. Constatar que eu não estava louco, não estava! Todas as vezes que morria de ciúmes ao vê-la dissimulada. Linda. Vadia. Vadia!

Em uma lanchonete, não muito longe desse bar, ao persegui-la. Notei logo alguma coisa muito estranha. Não durou muito a vê-la nos braços e nas mãos do filho da puta. Eu sabia e não me vanglorio disso. Eu não estava louco? Não estava!

Na hora, pensei em sair correndo pra cima deles. Matá-los. Mas por aquele momento me vi paralisado. Estático como uma bomba relógio. Milhões de situações pairaram sobre a minha cabeça. Uma mais deliciosa que a outra. Comecei, sem saber por que, a degustar cada acontecimento.

Saíram da lanchonete, dentro de um Monza Azul Metálico. De começo hesitei, mas continuei seguindo-lhes. Um motel. Intrigantemente, já não sentia nada. Só imaginava. A certa distância esperava. Na saída, muito satisfeitos, despediram-se. Ela pegou um taxi. Ele tomou seu destino com seu carro. Segui-o.

Morava a apenas dois bairros de distância, do nosso. Estacionou o carro em frente de sua casa e foi comprar cigarros, bem perto. Na frente da casa dele, esperava-o eu a sua volta. Assim que ele voltou, com um cigarro de menta na boca, perguntei a ele se poderia ajudar-me com o pneu do carro. Surpreendi suas costelas com uma pistola. – O que é isso? – Perguntou. Disse-lhe que só queria levá-lo a um passeio. Só queria ter uma conversa.

- A vista do mar é linda daqui, não achas?

- Você é louco? O que está fazendo?

- Sabe que não é a primeira vez que me perguntam isso. Na verdade, já chegaram quase a me convencer.

- Pára com isso, cara. Eu tenho família. – Nesse momento senti ainda mais raiva. Aproximei-me de sua pele branca e olhos castanhos. Observei-os como uma obra de arte. Limpei a lágrima que caia de um dos olhos do frouxo com a pistola. Podia sentir o bafo de buceta que se misturava com o cheiro de cigarro exalado de sua boca.

- Sai do carro. Gritei. – Sai!

- Não faz nada comigo, não, cara. Eu não sei quem é você. Por que faz isso?

Tirei uma corda da mala do carro. Joguei nele e pedi para amarrar os pés. Mijando-se atendeu a meu singelo pedido.

-Pra comer a mulher dos outros tu é muito homem não é imbecil!

Sua face gelou. Se já não entendia tudo, de quase tudo já se entendia o porque de passar por aquela situação.

- Não cara, eu posso explicar. Eu...

Certificava-me se havia prendido mesmo as pernas com as cordas quando, notei uma brecha no nó. Plantei-lhe uma semente na perna e fiz-lhe brotar uma dor. Chorou de dor. Mandei que o engolisse. As veias saltavam sobre sua testa.

- Pensei em matar você de uma vez só. Por todas. – Falei - Pensei em arrancar-lhe a língua e os braços para que nunca mais pudesses se comunicar. Todavia ao ver seu desespero, ao ver sua perna sangrando, algo me fez perceber que todo o ser humano necessita de uma segunda chance. Não vou mentir que não desejo matá-lo. Mas estou sendo honesto com você.

Com aquela fisionomia de dor, ensaiou ainda um sorriso. O canalha.

O cartucho do revólver estava cheio. Com exceção da última bala que utilizei em sua perna.

- Vamos brincar de roleta russa. Aqui existem oito buracos e sete balas. Se o destino quiser que você viva, não interferirei. Deixarei você ir embora. Dou minha palavra. Ajoelhe-se.

Ele o fez. Girei e puxei o gatilho. Com os olhos fechados o idiota tremia. Justamente a porra do buraco vazio! Ao sentir que tirara a sorte grande, sorriu um lindo sorriso. Descarreguei as sete balas restantes em sua cabeça com a esperança que de uma vez por todas realizasse o que é ser atraiçoado.

Meio Destino

Preto era feio e pobre. E apesar do apelido que tinham lhe dado, era branco feito pena. O menino recebera esse apelido por conter traços negros em seu rosto branquelo: Nariz grosso, lábios volumosos...

Preto nascera d'um estupro, no qual a vitima era uma mal conservada quase-senhora de cinqüenta e poucos de idade, chamada Vida. Mesmo sabendo do perigo da gravidez àquela altura da idade, decidiu ter o filho. Vida morreu no parto. Nascera ali um garoto impreguinado de imundice.


Respirou o ar pesado e fedorento do mundo, e vomitou.


Preto fora criado numa espécie de creche para garotos órfãos. E desde cedo agüentava os sarros que teimavam em tirar de si. Sentia-se como se fora amaldiçoado.


Certo dia achou de se perder. Pegou um ônibus pra qual quer lugar e se livrou de seu destino.

Sentia uma certa desgraça vinda de sua existência. Na sua cabeça, pensava algum dia em encontrar sua mãe, do modo mais inesperado, como via nos filmes da tv. Preto, apesar de nunca ninguém ter lhe dado esperança, sonhava que algum dia seria importante e mostrar-se-ia mais forte que os demais.


Não se mostrou, por final. Com alguns anos, após ter saído da creche, o mundo de fantasia que criara fora quase todo destruído. A esperança era um feto abortado. Preto agora cheirava cola e roubava carteiras nas fétidas-belas pontes do recife.

Em certa ocasião teve uma grande amizade. Um velho que de tanto sofrimento surtou. Preto se identificava demais com aquele homem. E o que mais admirava nele, era a sua loucura. Como eram fascinantes todos os conselhos que recebia. Mesmo sem muita sanidade, tinham sentido, e Preto pensava seriamente em segui-los. O velho era um pai pra preto.


Preto o matou, numa noite quando o velho lhe mostrava o rio. Não estava sóbrio. Agiu por impulso de roubá-lo... O costume que adquiriu tornou-se nocivo a partir daquele dia. Ao ver o corpo do velho ensangüentado no chão, chorou pela primeira vez. Era um choro agoniado, cheio de magoas e confissões.

Preto saiu correndo feito um louco pela ponte nova. Corria sem destino, sem saber pra onde ir, por qualquer lugar. Chegou em uma avenida e como descansando parou sentado numa pilastra. Confessava a si mesmo todas as suas desgraças como se fora um feto. Adormeceu.

Preto achou que o dia não amanheceria mais, pois, após acordar ainda teimava o céu escuro. Apenas as luzes laranjas enfileiradas. Sentia-se leve. Parecia ter esquecido de tudo. Sorria como um palhaço. Pensou na seqüência repetitiva da vida. O Riso era insaciável. Pela primeira vez em muito tempo estava sóbrio. Olhou uma linda moça que passeava na calçada. Ensandecido e inebriado por seu próprio sorriso se jogou na frente do primeiro carro que passou na avenida.

Filosofia de Ferro (O Rio)

-Filosofia mata! Retrucou o homem barbado à beira da ponte, ao encontrar um faminto garoto. –Seria mais fácil se nascêssemos sem cérebro, ou se, pelo menos, pudéssemos cortá-lo à faca. Assustado, o faminto garoto arregalou os olhos de um jeito, que os notáveis pareciam ter vida própria e querer pular de sua magra face negro. E a garrafa de ilusões baratas que se encontravam entre as suas mãos e silenciava sua boca, pareceu ser esquecida naquele momento. -Esse rio não me faz lembrar de nada importante. Continuou o homem barbado. –Mas esse nada, essa calmaria me faz pensar tantas coisas. Pensamentos suicidas que me cercam sem permissão. Acho que isso... Talvez isso seja... - Com a expressão incomodada, depois de algum tempo de silêncio exclamou aliviado: - Filosofia! O faminto garoto sem modos fazia-se de ouvidos, pois, curioso, tentava entender tais palavras. O homem barbado encontrava-se sentado, meditando no letreiro esverdeado que a Livraria Cultura alumiava no rio. - Está vendo esse rio? Perguntou o homem barbado. O faminto garoto continuou inerte, mas seus expressivos olhos confirmavam. –Este rio é a filosofia! Concluiu o homem barbado com ar de promotor. -E aquele mar mais a frente é a morte. Onde a filosofia acaba. Respirou. - A filosofia está na cabeça dos homens que pensam. Dos homens que se jogam no rio. Estes estão cientes do percurso da correnteza, mas já se encontram viciados em pensar. A consciência é um castigo, os instintos uma esperança. A filosofia é o que prova que não somos nem 100 razão, nem 100 instintos. Somos seres pensantes... Seres humanos... Suicidas. -Se a filosofia é tudo que mata, o homem é a filosofia. O homem mata – retrucou surpreendentemente o faminto garoto sem modos apalpando o bolso de sua bermuda. –Verdade! - Respondeu o Homem barbado. –O que você acha disso, estou errado? Encarando os olhos bêbados, amarelados do velho, pareceu estar indignado. -Passa-me a carteira camarada. Respondeu o faminto garoto com a filosofia nas mãos.

terça-feira, 17 de junho de 2008

Crônica de Junho

Em Casa Amarela, Zona Norte do recife, quando chove, as barreiras despencam como um bolo fofo nos morros, nas ruas, alagam as vias. O que mais se vê são carros e carros enguiçados: chevetes, fuscas... Quem vem de Casa Forte ou dos Aflitos, porém, pouco se preucupam. Os carros deles dividem-se em duas categorias: Aqueles que você queria ter e aqueles que você nem sabia que existia. Hoje é um dia qualquer de junho. Muitas dessas notícias já não são novidades na primeira edição do Jornal do Commércio. E dentro desse ônibus lotado, já não deixam ninguém admirado. Quase niguém lê jornal aqui dentro. Expremido no banco de trás, ao menos sentado, observo.
De Nova Descoberta a uma nova descoberta. Primeiro dia num emprego de telefonista. Mesmo tendo me formado em pedagogia, essa foi a melhor proposta que eu consegui encontrar depois de quatro anos de universidade. As águas passam no asfalto e na vida. No relógio são ainda seis e meia da manhã. Não tenho muitas horas para viver no dia. Talvez essa hora e meia que eu estou aqui seja a parte mais interessante no meu dia de trabalho. Tanto feto, tanta fé, tanta gente feia e bonita. Na agamenon os trobadinhas se jogam no canal enquanto os ônibus parem uma mutidão de crianças envelhecidas sem licença para viver.

domingo, 4 de maio de 2008

Os Braços de Hades (Parte 1)

Eu vi um homem deitado no chão. Barbas longas, cabelos despenteados, encardidos. Olhei para frente e segui viagem. Em menos de dez minutos havia esquecido aquela cena.
Estou em cima de um prédio. O prédio dos correios, pra ser mas exato. No centro do recife. Lugar estranho para se começar uma narrativa, a vista é linda. De ante mão saiba que esse será o últímo dia da minha vida. Caso tenha alguma supertição, ou medo do desconhecido, saiba que quem está escrevendo é um morto! Se você está lendo isso agora é por que já não me encontro mais sobre a terra firme. Não sei se farão jazidas, declarações de poetas que eu sempre detestei, falarão sobre um cristo que eu nunca idolatrei, tanto faz. Louvarão a um pedaço de carne em processo de apodrecimento. O certo é que eu estou decidido a me despedir de uma vez por todas. Agora não tenho mais escolhas.
Deixarei apenas três pessoas que eu sei que pelo menos já amaram-me um dia. Minha mãe, dona Edynara, um irmão mais velho, o Jonas e uma pessoa que para mim foi muito especial, que não citarei o nome, mas aqui vamos chamar de Lê.
Vocês devem estar se perguntando: Mas por que esse louco está em cima de um prédio querendo se matar?! Não anteciparemos as coisas, mas adianto que tive muitos motivos, um conjunto deles.
Antes de começar, confesso que sepre amei essa cidade. A vista daqui é muito bela. Antes de fazer o que estou fazendo, refleti sobre a última imagem que queria ter em vida. As pontes, as construções antigas. Até mesmo, os morcegos que habitam as costas do relógio central, ganham uma beleza singular quando vistos daqui.
Uma dessas pontes presenciou uns dos momentos mais felizes de minha vida. O dia que conheci Lê.

Era dia de carnaval na cidade do recife. Muita festa, muito barulho, muita gente sem senso de limites, muito trânsito. Uns colegas da Universidade marcaram para encontrarmos todos no Cais de Sta Rita, terminal central de ônibus, para de lá seguir para o recife antigo onde se realiza a festa principal da cidade, nessa época. Mesmo tendo de enfrentar um tempo enorme e infernal dentro daquele ônibus, consegui chegar ao Cais. Fui o primeiro a chegar. E sem exageiro, fui o primeiro por muito tempo. Já fazia uma hora e meia que eu esperava impacientemente. Esperei, esperei, até que decidir-me ir à festa sem eles. Nenhum de seus celulares atendiam! Me levantava destraído com minha própria ira esperofóbica quando esbarrou em mim aquela pessoa que seria o melhor e o pior doença que já tive.

-Opa! Desculpa! Sorriu o sorriso mais lindo que já vira.

Notei que saiu cambaleando, tentando ajeitar-se. Estava em um estado um tanto ébrio. Ri-me de um sorriso sacana. Parei e pensei estático por um tempo. Quando dei por mim ela estava indo em direção a ponte que liga o Cais ao Recife Velho. Corri em direção e chamei. Com um ar de "preucupação", ofereci-lhe minha companhia:

-Chego assim me oferecendo para ir com você e não pergunto nem se você está com alguém.

Sorrindo com os olhos baixos de embriaguês aquele ser me responde:

-Depende. Se você não fôr nem um maniaco, não tem problema!

Ri-me e retruquei:

- Juro que não sou. Ao menos que você queira.

Olhou-me quarentaetrêsmente e chamou-me com os olhos.

Detalhes, detalhes e mais detalhes... Pequenas coisas que não saem de minha cabeça. Um momento, outro momento. Segundos que antecedem e procedem momentos. Segundos que param. São raros, mas existem sim segundos que duram vários momentos e vice-versa. O que veio após foi um desses segundos.

Atravessando a ponte fui perguntado:
- Você me daria um beijo?

Várias coisas passaram pela minha cabeça naquele momento. Boas, más e indefinidas. Achei muito estranho. Não exitei. E antes que eu chegasse perto, ela me puchou. Foi um beijo psicodélico; Alucinógeno. Um beijo estranho, desesperado e bêbado. Um beijo que expressava várias coisas que eu não conseguia entender. Desgustei cada momento daqueles códigos, sem mais tentar decifra-los.

Sem fôlego olhei para aquele rosto. Mais segundos eternos. Ainda ofegante perguntei seu nome. Hades. O deus do submundo e da riqueza dos mortos. A vida e a morte. Degustei o apocalipse naqueles lábios. Labareda por labareda. Ao tocar seus cabelos longos, segurei na mão de Hermes, o guia dos guias. O dono do caminho de nenhum luigar. Apertei-a com os grossos modos de minhas mãos. Princesinha Grega. Se não fora esta, ainda, sua verdadeira identidade, não faria falta alguma a verdadeira, pois esta resumia, por total, sua persona.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Feliz Aniversário

De mãos dadas, na praça da Rui Barbosa com a Rosa e Silva, eles conversavam quase que timidamente, num banquinho.
Os olhos de Mendoncinha brilhavam, de uma forma inocente (abobalhada, eu diria). Podendo-se dizer o mesmo dela. Levantava-se para comprar balas num fiteiro em frente, quando Morena pensativa segurou um de seus braços e cravou-lhe a seginte pergunta:
- Você seria capaz de me trair?
Mendoncinha rebateu, de cara:
- Nunca! Por que isso agora?
- Morena insistiu:
- Veja só! Imagina eu, daqui a uns trinta anos. Como acha que eu vou está? Assim? - Abaixou a cabeça.
Medoncinha olhou para aquele corpo belíssimo de morena com vanglória, riu-se e ensaiou uma reposta, mas a pequena vendo o ar de graça no rosto de mendoncinha imperou:
- Mas imagina!
Sentou-se novamente:
- Veja bem, meu amor. Eu nunca seria capaz de fazer mal algum a você. Quanto mais te trair. Sabe por quê? Por que eu amo você. - e com as mãos leves na face de Morena ele continua: -Como nunca amei ninguém em toda a minha vida.
- Jura? - Pergunta morena com a carinha de quem quer rir e jeitinho manhoso.
- Juro.
Morena, com um sorriso bobo de contentamento, beija-lhe a boca, apaixonada.

O JANTAR

Ao chegar em casa, Mendoncinha, que morava com o pai e dois irmãos menores, encontra-os, como de costume nos domingos desde que sua mãe faleceu, na mesa a postos para jantar. Seu Mendonça, o pai de Mendoncinha reclama:
- Pensei que não viria mais, hoje! Depois que conheceste "essazinha". Pouco ligas para esse velho.
E de fato seu Mendonça estava certo. Quando sua mulher morrera, num horrível acidente com um caminhão, seu Mendonça e seus filhos aproximaram-se muito mais. Mendoncinha que já era um muleque sabido, como o denominava o pai, tornara-se sua compania principal, ao passo que, na época, os gêmeos, ainda, pouco emiiam algum som. Aos dezenove anos, quando arranjara seu primeiro emprego como carteiro, concursado, Mendoncinha, não por querer, afastou-se do seu pai e por ocasião só se viam nos fins de semana. A dois meses, já com vinte e três anos, fora promovido a um cargo maior na empresa e a pouco mais apresentara Morena, em sua casa, como namorada. De início, Mendonça ficara orgulhoso pelo filho ter como par aquela beldade – Entusiasmou-se: - Esse é o meu filho! -, mas, com o tempo, notara o filho mais e mais distante, gradativamente.
Ao ouvir a reclamação do pai, mendonça aproximou-se e deu um "cheiro" na cabeça do velho. E falou:
- Deixe disso painho. Não há mulher que eu troque pelo senhor, não sabes?
O velho ainda com cara abusada porém, com ar de riso mandou:
- Senta muleque (o pai não perdera o hábito). Vai esfriar. Mendoncinha sentou-se, serviu-se e começou a comer.
Já no quarto, em trajes de dormir, Mendoncinha fez suas orações e deitou. Na sua cabeça, vinham os traços da pequena. Os traços, após alguns instantes, criava forma. Era o rosto de Morena. Morena ria, trejeitava e beijava-o. Um ronco profundo anunciara seu sono.

A VIDA

No outro dia. Disposto que só ele, Mendoncinha acordou primeiro que todo mundo, preparou o café, serviu-se, e antes que os outros acordassem, saiu para o trabalho. E assim a sua vida passou. Depois de um ano, casara-se com Morena, mais três anos tiveram seu primeiro filho. Esse crescera e tornara-se um homem de bem. Seus irmãos que não se deram muito bem na vida, contudo viviam com dignidade; seu pai falecera.
Agora Mendoncinha era o pai. Sua mulher, apesar de algumas ruguinhas mantivera-se bem conservada para a sua idade. Mendocinha, até, dizia que como vinho a esposa melhorara com o tempo. Esse pobre, pelo contrário, que sempre fora um homem elegante e bem ajeitado, embarrigou-se, pareceu diminuir e, ainda por cima, sofria com um alto grau de calvície. Mas não notou nenhuma dessas auto-mudanças de cara. Até que, algum tempo depois, notara que a mulher afastava-se cada vez mais dele, e além do mais, não queria cumprir os compromissos conjugais. Era uma dor de cabeça aqui, outra dor de coluna pra lá. Encucou-se com razão, Mendoncinha: - Logo Morena?! - Deixou passar de início, talvez fora só uma fase, mas as coisas só fizeram piorar. Morena começou a tratar-lhe mal. Xingava-o com os piores adjetivos que uma pessoa obesa e careca podia ouvir.
Certa vez, um dia que estava adoentado com uma virose danada, dispensou-se do trabalho cedo, não agüentava a "moleza no corpo", como falava. Ao chegar em casa, parou o carro em frente e adentrou rapidamente, por causa da chuva que começava a cair. Febril, tirou o paletó molhado, afrouxou a gravata, e fora a cozinha tomar um copo d'água, para engolir o anti-térmico que acabara de colocar na boca. Enquanto enchia o copo, no filtro. Ouviu um barulho estranho. Como se algo estivesse batendo nas paredes continuamente. Bebeu um gole da água e colocou o copo semi-cheio na pia. Só então notara que sua mulher não estava em nenhum canto por ali. Seguiu o som das batidas. E a medida que chegava mais perto do quarto, o tum, tum, tum aumentava. E aumentava, e aumentava... até que, em frete a porta, podia-se ouvir em alto e bom som o que se passava lá dentro. Mendoncinha não quis pensar besteira e mesmo exitou em abrir a porta do quarto. Mas abriu. Não acreditou no que viu. Balbuciando, Mendoncinha perguntava-se em voz baixa: -Eu mereço? Depois de repetir algumas vezes, exaltou-se: Eu mereço isso sua canalha?! Pensa que isso aqui é a casa da mãe Joana? Sua mulher que estava na cama com um garotão a lá Gianequini, numa posição surreal, inacreditável até o momento, o encarou e com uma cara de demônio. Exclamava: Me deixa em paz seu saco de batatas podres, seu balofo careca, dá o fora daqui. Gargalhava alto e no embalo gritava: - Me deixa! Some daqui! Não amola! Por um momento passou pela cabeça de Mendoncinha, matá-los, mas numa tristeza imensa, as palavras de Morena começaram a ecoar em sua cabeça. As lagrimas caiam em seu rosto acompanhadas de gritos de horror. Saiu correndo. O dia nublado começou a chover. Ele correu, correu e correu. Até que parou no meio de uma avenida. Aos prantos, louco ajoelhou-se. Um caminhão de batatas perdeu o controle e o estatelou no chão. Com um pingo de consciência que ainda restava, enxergou uma cadela lambendo sua face.

O SONHO

Mendoncinha acordara assustado, com um beijo de Morena em sua face. Levantou-se rápido e apavorado. Tocou com suas duas mãos no rosto e depois em todo resto do corpo. Ainda apontou o dedo para Morena no intuito de falar alguma coisa, mas deu-se conta finalmente que tudo que não passara, apenas, de um pesadelo. Levantou a cabeça, e notou Morena, seus irmão e seu pai segurando um bolo, com olhos de quem não estão entendendo nada. Naquele dia os irmãos e a namorada prepararam uma festa de madrugada, antes de Mendoncinha se acordar. Passado o espanto, gritaram todos:
- Feliz Aniversário, Mendoncinha!
Mendoncinha pensativo, saiu correndo no meio dos parabéns.