Eu vi um homem deitado no chão. Barbas longas, cabelos despenteados, encardidos. Olhei para frente e segui viagem. Em menos de dez minutos havia esquecido aquela cena.
Estou em cima de um prédio. O prédio dos correios, pra ser mas exato. No centro do recife. Lugar estranho para se começar uma narrativa, a vista é linda. De ante mão saiba que esse será o últímo dia da minha vida. Caso tenha alguma supertição, ou medo do desconhecido, saiba que quem está escrevendo é um morto! Se você está lendo isso agora é por que já não me encontro mais sobre a terra firme. Não sei se farão jazidas, declarações de poetas que eu sempre detestei, falarão sobre um cristo que eu nunca idolatrei, tanto faz. Louvarão a um pedaço de carne em processo de apodrecimento. O certo é que eu estou decidido a me despedir de uma vez por todas. Agora não tenho mais escolhas.
Deixarei apenas três pessoas que eu sei que pelo menos já amaram-me um dia. Minha mãe, dona Edynara, um irmão mais velho, o Jonas e uma pessoa que para mim foi muito especial, que não citarei o nome, mas aqui vamos chamar de Lê.
Vocês devem estar se perguntando: Mas por que esse louco está em cima de um prédio querendo se matar?! Não anteciparemos as coisas, mas adianto que tive muitos motivos, um conjunto deles.
Antes de começar, confesso que sepre amei essa cidade. A vista daqui é muito bela. Antes de fazer o que estou fazendo, refleti sobre a última imagem que queria ter em vida. As pontes, as construções antigas. Até mesmo, os morcegos que habitam as costas do relógio central, ganham uma beleza singular quando vistos daqui.
Uma dessas pontes presenciou uns dos momentos mais felizes de minha vida. O dia que conheci Lê.
Era dia de carnaval na cidade do recife. Muita festa, muito barulho, muita gente sem senso de limites, muito trânsito. Uns colegas da Universidade marcaram para encontrarmos todos no Cais de Sta Rita, terminal central de ônibus, para de lá seguir para o recife antigo onde se realiza a festa principal da cidade, nessa época. Mesmo tendo de enfrentar um tempo enorme e infernal dentro daquele ônibus, consegui chegar ao Cais. Fui o primeiro a chegar. E sem exageiro, fui o primeiro por muito tempo. Já fazia uma hora e meia que eu esperava impacientemente. Esperei, esperei, até que decidir-me ir à festa sem eles. Nenhum de seus celulares atendiam! Me levantava destraído com minha própria ira esperofóbica quando esbarrou em mim aquela pessoa que seria o melhor e o pior doença que já tive.
-Opa! Desculpa! Sorriu o sorriso mais lindo que já vira.
Notei que saiu cambaleando, tentando ajeitar-se. Estava em um estado um tanto ébrio. Ri-me de um sorriso sacana. Parei e pensei estático por um tempo. Quando dei por mim ela estava indo em direção a ponte que liga o Cais ao Recife Velho. Corri em direção e chamei. Com um ar de "preucupação", ofereci-lhe minha companhia:
-Chego assim me oferecendo para ir com você e não pergunto nem se você está com alguém.
Sorrindo com os olhos baixos de embriaguês aquele ser me responde:
-Depende. Se você não fôr nem um maniaco, não tem problema!
Ri-me e retruquei:
- Juro que não sou. Ao menos que você queira.
Olhou-me quarentaetrêsmente e chamou-me com os olhos.
Detalhes, detalhes e mais detalhes... Pequenas coisas que não saem de minha cabeça. Um momento, outro momento. Segundos que antecedem e procedem momentos. Segundos que param. São raros, mas existem sim segundos que duram vários momentos e vice-versa. O que veio após foi um desses segundos.
Atravessando a ponte fui perguntado:
- Você me daria um beijo?
Várias coisas passaram pela minha cabeça naquele momento. Boas, más e indefinidas. Achei muito estranho. Não exitei. E antes que eu chegasse perto, ela me puchou. Foi um beijo psicodélico; Alucinógeno. Um beijo estranho, desesperado e bêbado. Um beijo que expressava várias coisas que eu não conseguia entender. Desgustei cada momento daqueles códigos, sem mais tentar decifra-los.
Sem fôlego olhei para aquele rosto. Mais segundos eternos. Ainda ofegante perguntei seu nome. Hades. O deus do submundo e da riqueza dos mortos. A vida e a morte. Degustei o apocalipse naqueles lábios. Labareda por labareda. Ao tocar seus cabelos longos, segurei na mão de Hermes, o guia dos guias. O dono do caminho de nenhum luigar. Apertei-a com os grossos modos de minhas mãos. Princesinha Grega. Se não fora esta, ainda, sua verdadeira identidade, não faria falta alguma a verdadeira, pois esta resumia, por total, sua persona.
domingo, 4 de maio de 2008
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