Preto era feio e pobre. E apesar do apelido que tinham lhe dado, era branco feito pena. O menino recebera esse apelido por conter traços negros em seu rosto branquelo: Nariz grosso, lábios volumosos...
Preto nascera d'um estupro, no qual a vitima era uma mal conservada quase-senhora de cinqüenta e poucos de idade, chamada Vida. Mesmo sabendo do perigo da gravidez àquela altura da idade, decidiu ter o filho. Vida morreu no parto. Nascera ali um garoto impreguinado de imundice.
Respirou o ar pesado e fedorento do mundo, e vomitou.
Preto fora criado numa espécie de creche para garotos órfãos. E desde cedo agüentava os sarros que teimavam em tirar de si. Sentia-se como se fora amaldiçoado.
Certo dia achou de se perder. Pegou um ônibus pra qual quer lugar e se livrou de seu destino.
Sentia uma certa desgraça vinda de sua existência. Na sua cabeça, pensava algum dia em encontrar sua mãe, do modo mais inesperado, como via nos filmes da tv. Preto, apesar de nunca ninguém ter lhe dado esperança, sonhava que algum dia seria importante e mostrar-se-ia mais forte que os demais.
Não se mostrou, por final. Com alguns anos, após ter saído da creche, o mundo de fantasia que criara fora quase todo destruído. A esperança era um feto abortado. Preto agora cheirava cola e roubava carteiras nas fétidas-belas pontes do recife.
Em certa ocasião teve uma grande amizade. Um velho que de tanto sofrimento surtou. Preto se identificava demais com aquele homem. E o que mais admirava nele, era a sua loucura. Como eram fascinantes todos os conselhos que recebia. Mesmo sem muita sanidade, tinham sentido, e Preto pensava seriamente em segui-los. O velho era um pai pra preto.
Preto o matou, numa noite quando o velho lhe mostrava o rio. Não estava sóbrio. Agiu por impulso de roubá-lo... O costume que adquiriu tornou-se nocivo a partir daquele dia. Ao ver o corpo do velho ensangüentado no chão, chorou pela primeira vez. Era um choro agoniado, cheio de magoas e confissões.
Preto saiu correndo feito um louco pela ponte nova. Corria sem destino, sem saber pra onde ir, por qualquer lugar. Chegou em uma avenida e como descansando parou sentado numa pilastra. Confessava a si mesmo todas as suas desgraças como se fora um feto. Adormeceu.
Preto achou que o dia não amanheceria mais, pois, após acordar ainda teimava o céu escuro. Apenas as luzes laranjas enfileiradas. Sentia-se leve. Parecia ter esquecido de tudo. Sorria como um palhaço. Pensou na seqüência repetitiva da vida. O Riso era insaciável. Pela primeira vez em muito tempo estava sóbrio. Olhou uma linda moça que passeava na calçada. Ensandecido e inebriado por seu próprio sorriso se jogou na frente do primeiro carro que passou na avenida.
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