-Filosofia mata! Retrucou o homem barbado à beira da ponte, ao encontrar um faminto garoto. –Seria mais fácil se nascêssemos sem cérebro, ou se, pelo menos, pudéssemos cortá-lo à faca. Assustado, o faminto garoto arregalou os olhos de um jeito, que os notáveis pareciam ter vida própria e querer pular de sua magra face negro. E a garrafa de ilusões baratas que se encontravam entre as suas mãos e silenciava sua boca, pareceu ser esquecida naquele momento. -Esse rio não me faz lembrar de nada importante. Continuou o homem barbado. –Mas esse nada, essa calmaria me faz pensar tantas coisas. Pensamentos suicidas que me cercam sem permissão. Acho que isso... Talvez isso seja... - Com a expressão incomodada, depois de algum tempo de silêncio exclamou aliviado: - Filosofia! O faminto garoto sem modos fazia-se de ouvidos, pois, curioso, tentava entender tais palavras. O homem barbado encontrava-se sentado, meditando no letreiro esverdeado que a Livraria Cultura alumiava no rio. - Está vendo esse rio? Perguntou o homem barbado. O faminto garoto continuou inerte, mas seus expressivos olhos confirmavam. –Este rio é a filosofia! Concluiu o homem barbado com ar de promotor. -E aquele mar mais a frente é a morte. Onde a filosofia acaba. Respirou. - A filosofia está na cabeça dos homens que pensam. Dos homens que se jogam no rio. Estes estão cientes do percurso da correnteza, mas já se encontram viciados em pensar. A consciência é um castigo, os instintos uma esperança. A filosofia é o que prova que não somos nem 100 razão, nem 100 instintos. Somos seres pensantes... Seres humanos... Suicidas. -Se a filosofia é tudo que mata, o homem é a filosofia. O homem mata – retrucou surpreendentemente o faminto garoto sem modos apalpando o bolso de sua bermuda. –Verdade! - Respondeu o Homem barbado. –O que você acha disso, estou errado? Encarando os olhos bêbados, amarelados do velho, pareceu estar indignado. -Passa-me a carteira camarada. Respondeu o faminto garoto com a filosofia nas mãos.
sexta-feira, 12 de dezembro de 2008
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